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AMIZADE; Leia artigo de Dr. Fernando Enéas
terça-feira, 20 de setembro de 2011 Posted by Silvano Silva ✔



Não poucos filósofos dedicaram-se à análise da amizade, o que revela, por si-só, ser ela algo que todos podem sentir e intuir, mas que é de difícil definição. De Platão a Adorno, passando por Sêneca, Montaigne, Kant e Nietzsche, muito se refletiu sobre a amizade, nem sempre com coincidência de conclusões. Basta lembrar que Aristóteles, em seu Ética a Nicômacos, relata que alguns estudiosos “definem a amizade como uma espécie de semelhança entre pessoas e dizem que as pessoas semelhantes são amigas”. Outros tantos vêem na amizade uma atração entre contrários; poder-se-ia dizer, uma relação de complementaridade (Kant toma esta trilha).


Os Livros VIII e IX de Ética a Nicômacos tratam da amizade, de suas espécies e da analogia que é possível fazer entre estas espécies e as formas de governo, ou mesmo com as leis civis. Não convém transcrever, aqui, estas comparações. De Aristóteles importa guardar, por ora, que a amizade é uma forma de excelência moral ou, a depender da tradução empregada, uma virtude.



Tal virtude se manifesta na boa vontade recíproca entre duas pessoas que se desejam bem.


A amizade difere do amor, ainda segundo Aristóteles, exatamente pelo aspecto da reciprocidade. É possível amar-se algo ou alguém sem que este saiba, corresponda ou possa corresponder ao amor que lhe é dedicado. A amizade, ao contrário, só se manifesta entre pessoas que se querem bem reciprocamente. Cabe notar, entretanto, que o conceito de amor empregado por Aristóteles não se restringe ao relacionamento humano, pois para ele as pessoas amam o que é bom, agradável ou útil, donde se extrai que o objeto do amor pode ser animado ou inanimado, real ou mesmo ideal.


Para Sêneca, o amor é uma amizade tomada pela loucura. Bem se vê, aqui, que o conceito de amor tomado por Sêneca é limitado ao que se forma entre duas pessoas, reciprocamente, por isso ele se aproximaria da amizade, mas dela diferindo pela nota da loucura.


Mas e a amizade propriamente dita? O que diz este filósofo sobre ela? É para ele também uma “linda virtude”, que mesmo o sábio, que se basta em si mesmo, gosta de pôr em prática para não deixá-la sem uso. E exerce tal virtude não para ter alguém que zele por si, em uma enfermidade, ou o socorra na desdita; cuida de exercê-la para ter alguém por quem zelar ou socorrer.



Diz ele, ainda: “Qual é o meu objetivo, quando faço uma amizade? Ter um ser por quem dar a minha vida, um ser que seguirei até o exílio, que defenderei com todas as minhas forças contra a morte.”


Dando um grande salto na linha do tempo, é interessante observar o que diz Kant a respeito do assunto. Em suas Lições de Ética, ele identifica dois agentes a moverem o homem. Um é o amor próprio, que nasce do próprio homem e faz com que ele busque sua própria felicidade; o outro, o agente moral, poderia ser identificado com o amor universal da humanidade, ou seja, com o desejo de proporcionar a felicidade dos outros. O amor próprio leva cada um a cuidar de si próprio, a buscar sua própria felicidade, o que, se for feito sem prejuízo de ninguém, é um indiferente moral, ou seja, é moralmente aceito, mas não revela qualquer mérito de quem o exercita. A amizade, por seu turno, estaria identificada com o segundo agente - o amor universal da humanidade - e, fosse possível a amizade de todos os homens entre si, cada um cuidaria de seu próximo e seria cuidado por ele, daí decorrendo a felicidade de todos, sem prejuízo de ninguém. Nas palavras do próprio Kant, é “esta a idéia de amizade, em que o amor próprio é suplantado por uma generosa reciprocidade de amor.”


Esta idéia de cuidado recíproco, de amor recíproco, com a justa distribuição da felicidade entre os homens, já se fazia presente em Aristóteles, na obra acima mencionada, pois quando “as pessoas são amigas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam da amizade; considera-se que a mais autêntica forma de justiça é uma disposição amistosa.”


Afinal, não é por outra razão que, na famosa oração atribuída a São Francisco de Assis, para se tornar um instrumento de Paz é necessário antes consolar que ser consolado, antes compreender que ser compreendido e antes amar que ser amado. Somente o cuidado desinteressado e recíproco da verdadeira amizade pode, de fato, conduzir a um mundo mais justo. Somente tendo esta idéia como norte poderá a humanidade prescindir do direito e aproximar-se da Justiça.


Dr. Fernando Enéas de Souza
Defensor Público

Com o Blog do prof. Josa

Silvano Silva ✔

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