Celular causa dependência Pessoas que não conseguem ficar sem o celular podem desenvolver comportamentos semelhantes aos de viciados em drogas, diz psicólogo.
Francisco França

Os aparelhos celulares figuram entre os
presentes natalinos mais procurados pelos paraibanos. De acordo com
pesquisa realizada entre os dias 17 e 29 de outubro deste ano pela
Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado da Paraíba
(Fecomércio PB), o celular figura como o segundo eletroeletrônico mais
procurado, com 22,41% da preferência, atrás apenas dos que desejam
comprar aparelhos de televisão (34,48%).
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)
realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em
2011, o Brasil contava com 115.433 pessoas que possuíam aparelhos
celulares. Na Paraíba, 63,6% da população de 10 anos ou mais de idade
possuía o aparelho para uso pessoal em 2011.
No entanto, o desejo cada vez maior, aliado à facilidade em obter
estes aparelhos, criou uma nova doença que, segundo psicólogos, é
caracterizada pela dependência da tecnologia, a 'Nomofobia', que
significa "no mobile", ou medo de estar sem celular, na tradução
literal.
De acordo com o psicólogo clínico Luis Amaral, é cada vez maior o
número de pessoas que não conseguem ficar sem o celular nem por um
instante.
Quando forçados a viver essa situação, essas pessoas entram em um
estado de profunda ansiedade e angústia, seja pelo esquecimento do
aparelho em algum lugar, pela falta de créditos ou com o fim da bateria.
“É fácil identificar uma pessoa que sofre com o vício porque os
sinais são bem claros e atrapalham realmente as relações pessoais e
profissionais. Quem sofre com essa síndrome fica muito desgastado,
começa a não dormir direito e a não dar atenção à família e aos amigos
por estar o tempo todo de olho no aparelho celular, que mantém ligado 24
horas por dia. E a ansiedade é clara quando o esquece em casa, por
exemplo”, explicou o psicólogo.
Quando o transtorno chega a níveis extremos, Luis Amaral esclarece
que os sintomas passam a ser o do sentimento de rejeição quando não
recebe ligações ou quando os que estão próximos do indivíduo recebem
mais ligações do que ele. Além do mais, a insegurança pode tomar conta
da pessoa quando não há sinal por parte da operadora.
VÍCIO É PRÓXIMO AO DAS DROGAS
Ainda segundo o psicólogo, dependendo do grau de uso, o aparelho
celular pode desencadear uma dependência química semelhante ao que
ocorre com qualquer droga. “O comportamento compulsivo com o celular
requer tratamento, assim como que ocorre com quem é alcoólatra, cujo
acompanhamento deve ocorrer até que se alcance um limite saudável para o
uso do aparelho. O primeiro passo, no entanto, é necessariamente o
reconhecimento de sua condição de dependência e de como os
relacionamentos pessoais e profissionais são relegados a segundo plano,
causando prejuízos pessoais”, disse.
A cura para o transtorno reside, portanto, no resgate dos momentos de
prazer e felicidade vivenciados nos ambientes reais e na aceitação dos
estragos que a dedicação exclusiva aos contatos intermediados pelo
aparelho, quer seja através de ligações ou mesmo do uso da internet e
das redes sociais provocam.
“O tratamento depende da consciência da compulsividade, quando a
pessoa entende a necessidade da substituição das horas que passa
interagindo através do aparelho por outra atividade, seja do repertório
anteriormente desenvolvidas e que não causavam prejuízo. A comunicação
real, o lazer, as conversas interpessoais são utilizadas como
ferramenta no tratamento da dependência e pondo um fim na atrofia
cognitiva que o vício desencadeia”, conclui Luis Amaral.
CELULAR NO COMANDO
O técnico em análise de concreto Fernando Antônio Soares, de 44
anos, é, definitivamente, um viciado em celular e garante sofrer as
consequências da dependência do aparelho que ele define como sendo quem
comanda sua própria vida.
“Meu celular está comigo 24 horas por dia. Ele comanda toda a
programação da minha vida. Quando acordo, às 6h, a primeira coisa que
faço é olhar se não chegou nenhuma mensagem, ou se estou perdendo alguma
informação. A ansiedade para estar sempre com ele é tamanha que, às
vezes, sinto dificuldade para me desligar, para dormir e, com isso,
sofro um visível desgaste psicológico. Ocasionalmente, sinto o baixo
desempenho nas atividades a que preciso me dedicar e já recebi
reclamações dos meus superiores no trabalho, o que pôs em risco o meu
emprego. Ainda assim, não consigo passar nem um dia sem ele, como os
meus filhos (de 18 e 23 anos) conseguem”, admite Fernando.
Vanessa Furtado/Jornal da Paraiba




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