Duciran Farena defende o fim da reeleição no Brasil
“Todo ano,
quando vai se aproximando a eleição, os parlamentares sentem a
necessidade de justificar a grande enganação que é nosso sistema
eleitoral”, disse.

“A reeleição é hoje a grande fonte dos males
de nosso sistema eleitoral”. A afirmação foi feita pelo procurador
regional eleitoral Duciran Farena em entrevista exclusiva ao JORNAL DA
PARAÍBA. Para ele, a reforma eleitoral que o país tanto precisa deveria
começar pelo voto obrigatório, adoção do voto distrital e o
financiamento de campanhas. “Todo ano, quando vai se aproximando a
eleição, os parlamentares sentem a necessidade de justificar a grande
enganação que é nosso sistema eleitoral”, disse.
JORNAL DA PARAÍBA - A minirreforma eleitoral aprovada no Congresso Nacional terá mesmo aplicabilidade nas eleições de 2014?
DUCIRAN - Há entendimento do STF, com relação à minirreforma de 2006,
de que alterações que não rompam com a igualdade dos partidos e
candidatos no processo eleitoral têm aplicabilidade imediata, não se
aplicando o prazo do artigo 16 da Constituição, de que a lei nova tem
que estar em vigor um ano antes da eleição. Acredito que é o caso desta
nova minirreforma. Mas nunca se sabe. A jurisprudência eleitoral do TSE e
do STF não permite nenhuma segurança. Particularmente há aspectos
positivos na minirreforma, como o prazo para substituição de candidatos,
que eu gostaria que tivessem aplicação imediata. Mas lembro que o STF
afastou a ficha limpa nas eleições de 2010, aplicando a anterioridade
eleitoral, e claramente a lei não quebrava o equilíbrio eleitoral, pois
afetava igualmente a todos os partidos. Enfim, a disputa judicial vai
ser grande.
JP - Como o senhor vê o fato de que a cada eleição temos mudanças na legislação?
DUCIRAN -Todo ano, quando vai se aproximando a eleição, os
parlamentares sentem a necessidade de justificar a grande enganação que é
nosso sistema eleitoral. E como estão em débito com uma reforma
eleitoral verdadeira, prometida desde a redemocratização, surgem estas
reformas cosméticas, que não mudam a estrutura de nada, só servindo para
disfarçar a inação do congresso e do governo na matéria. A única
verdadeira mudança que tivemos em 20 anos foi a ficha limpa, de
iniciativa popular, e o Congresso votou “com a faca no pescoço”, como
bem disse um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) adversário da
inovação. Acredito que só haverá reforma eleitoral séria se houver uma
grande crise, ou se as manifestações de rua continuarem...
JP - O que, na sua opinião, seria uma reforma eleitoral ideal para o país?
DUCIRAN - Uma que enfrentasse a essência dos problemas. Começando com
o voto obrigatório, adoção do voto distrital, e depois sobre o
financiamento das campanhas. Qualquer que fosse a modalidade de
financiamento, determinando a transparência total da arrecadação e
gastos de campanha e democratizando as estruturas e convenções internas
dos partidos. Moralizando as prestações de contas e estabelecendo
sanções efetivas para irregularidades nestas prestações. Moralizando a
fidelidade partidária, para impedir o troca-troca e barganha de
mandatos. Moralizando a inelegibilidade, obrigando o candidato a buscar
as certidões. Simplificando o processo judicial eleitoral, com
unificação de ações e prazos. Enfim, proibindo de vez a reeleição, que é
hoje a grande fonte dos males de nosso sistema eleitoral.
JP - O Ministério Público Eleitoral tem batido muito contra a troca
de candidatura de última hora. Na minirreforma eleitoral ficou definido
que nenhum candidato pode ser substituído a menos de 20 dias do pleito.
Como o senhor vê esse prazo?
DUCIRAN - Toda substituição de última hora é uma fraude. É um ficha
suja que mantém sua candidatura até o último segundo e quando vê que
seus recursos judiciais não terão êxito, faz-se substituir pela mulher,
pelo motorista... É bem verdade que a própria Justiça poderia ter
cortado esse mal pela raiz. Mas admitiu. Vinte dias é melhor que nada,
mas entendo que se não há tempo para a mudança nas urnas do nome e foto
do candidato, nenhuma substituição deveria ser aceita. O problema é que a
nova legislação praticamente legitima a conduta de quem vinha
substituindo em última hora, e ainda está sujeita a questionamento, com
base na anterioridade eleitoral.
JP - Recentemente o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba aprovou
resolução fixando em dois anos os mandatos dos membros da Mesa Diretora.
Na sua opinião, foi uma medida correta?
DUCIRAN - Sim. O mandato de um ano era absolutamente exíguo e
prejudicial para a continuidade administrativa em questões relevantes,
como a organização das eleições. Ademais o TRE agiu assim em obediência a
uma decisão do Conselho Nacional de Justiça.
JP - A PRE-PB vai ingressar com ações de perda de mandato por
infidelidade partidária, como fez a Procuradoria Geral Eleitoral (PGE)
contra 13 parlamentares no país?
DUCIRAN - Não conheço as ações, mas quero crer que foram movidas
naqueles casos que chamamos de “divórcio amigável”, quando o partido de
origem concorda com a saída do parlamentar, por diversas razões,
inclusive para composição de palanques regionais. É importante ressaltar
que até o presente momento, a PRE-PB não recebeu nenhuma comunicação
desse tipo de mudança e que o entendimento do próprio TSE tem sido o de
que como o mandato pertence ao partido, se o partido concorda com a
mudança não há como o parlamentar ser punido pela desfiliação. No
momento, não há perspectiva de ações semelhantes serem tomadas em nível
estadual, mas estamos ainda aguardando orientações da PGE.
JP - Já existe um planejamento estratégico do Ministério Público Eleitoral para as eleições de 2014 no Estado?
DUCIRAN - Recentemente, o TSE lançou as minutas de instruções das
resoluções para o próximo processo eleitoral e realizou audiência
pública a respeito. Estamos aguardando as resoluções e também o
posicionamento da PGE, que está analisando as propostas, para realizar a
programação.
JP - Qual será o foco das atenções do Ministério Público Eleitoral no processo eleitoral que se avizinha?
DUCIRAN - Combater e prevenir o financiamento irregular e todas as
modalidades de abuso que representem distorção à vontade do eleitor.
JP - Qual a sua opinião sobre a quantidade de partidos que existem hoje no Brasil?
DUCIRAN - O excesso de partidos no Brasil hoje, a meu ver, é um dos
fatores de fragilização de nossa democracia. Uma coisa é a livre criação
de partidos, assegurada pela Constituição, outra bem diversa é a
obrigação do contribuinte de sustentar partidos sem representatividade
popular nenhuma, que parecem criados exclusivamente para barganhas de
trocas de mandatos e tempo de TV, e para negociar apoio ao governo de
plantão. É curioso como só surge partido novo de “centro”, isto é,
aquele que não é nada, não tem ideologia nenhuma, só vai negociar adesão
a quem oferecer mais (em regra, o governo). Partido político hoje no
Brasil é um cartório. Tem dono. O dono manda e desmanda. Junta
assinaturas, a imensa maioria fraudulentas, está registrado, já nasce
com direito a milhões do fundo partidário. E mais todas as vantagens da
adesão de parlamentares (possibilidade admitida pela resolução nº
22.610/2007 do TSE). Quem não quer?
JP - O STF deve julgar dia 11 de dezembro a Ação Direta de
Inconstitucionalidade que questiona o financiamento de campanhas
políticas feito por empresas privadas. A saída seria o financiamento
público de campanha?
DUCIRAN - O financiamento público é defendido por muita gente boa,
mas acho que se for implantado no Brasil chegaremos a 200 partidos. Não
sou a favor. O país vive uma crise fiscal, que só vai se agravar nos
próximos anos. A ideia de que o contribuinte tenha que sustentar
partidos que podem e devem captar dinheiro de doações me parece absurda.
Além disso, financiamento público não impede caixa 2. O que impede o
caixa 2, o excesso, é a transparência total na arrecadação e despesa, o
rigor no controle dos gastos e prestações de contas, e o rigor na
punição daqueles que fazem captação ou gastos ilícitos. É disso que sou a
favor.
Lenilson Guedes/JPB




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